Entrevista do Mês

Por que Sofremos Tanto? Lourdes Possatto responde.


Site - O título de seu novo livro é  muito interessante: Por que Sofremos Tanto? E essa é a pergunta que todos nós fazemos cotidianamente. Afinal, por que sofremos tanto?
Lourdes Possatto - Sofremos muito porque temos uma forma errada de lidar com os eventos de nossa vida. Vemos tudo à nossa volta como problemas, em vez de desafios, desafios esses que na realidade nos fazem crescer e amadurecer. Se alguém não tem nenhum desafio na vida, não cresce e fica frágil, imaturo. E sofremos também porque nos afastamos da realidade das coisas e criamos um monte de ilusões em nossa cabeça. O simples fato de modificar a ótica pela qual vemos o que achamos que são problemas já diminui o sofrimento. O sofrimento é uma forma de nossa natureza nos avisar de que estamos adotando posturas e atitudes totalmente contrárias à nossa essência e às leis naturais. Na maioria das vezes as pessoas agem de forma neurótica, segundo crenças inadequadas. Por exemplo: preocupações. A pessoa acredita que tem de se preocupar senão nada acontece. Só que é ao contrário,  o que gera acontecimentos são as ações e não as preocupações. Se você pensar a energia imensa que gasta se preocupando com coisas que, na maioria das vezes, não lhe dizem respeito, já diminuiria o seu sofrimento. Uma pessoa pode se preocupar com a saúde do marido, com a felicidade do filho, com o governo do país, com o futuro, com sua velhice, e se ela parasse para ponderar, perceberia que não tem controle sobre nenhum desses aspectos. Ela somente tem controle sobre o seu próprio campo de ação, pela sua vontade ou necessidade de agir de uma determinada forma. De nada adianta se preocupar com o outro senão houver uma ação, algo que se possa fazer. Se estou preocupada com a saúde de meu filho, eu posso levá-lo ao médico, comprar os medicamentos e medicá-lo. Só que o tempo da melhora, como os remédios agirão no corpo dele, ou seja, o funcionamento interno do organismo dele não está sob meu controle, sob minha responsabilidade. É aqui o limite da preocupação, a ação dentro do campo real de ação, o resto fica por conta dele mesmo, de sua vontade de melhorar ou não, do desafio que essa doença representa para ele. Assim, a preocupação é inócua, vazia e só gera ansiedade, pois na maioria das vezes a pessoa preocupada só fica pensando em tudo que de bem terrível pode acontecer numa situação e ela, em sua neurose, acha que pode controlar ou evitar todos esses eventos. Se tomar consciência dessa atitude terrível, ficará no aqui e agora, consciente de sua ação e desenvolveria mais paciência, que só significa a aceitação da realidade como ela é. Aliás, a aceitação é um dos capítulos desse livro, que por si só, já diminui o sofrimento.

Site - O sofrimento é efetivamente uma ferramenta de evolução ou dá para a gente se melhorar sem sofrer tanto?
Lourdes
- Não acredito que precisemos sofrer para evoluir. Se bem que todo mundo já ouviu aquela citação: "se não for pelo amor, vai pela dor", não é mesmo? É claro que a natureza usa o sofrimento para chamar a atenção para as posturas e crenças inadequadas. Se houver inteligência emocional, centralidade, consciência das ações, uma pessoa pode realizar todos os seus desafios, evoluir por conta disso, e não precisa necessariamente sofrer. Respeitar as leis da vida, as coisas como são, gera maturidade, centralidade e não sofrimento. O que causa nosso sofrimento são nossas atitudes dramáticas, ilusórias, as expectativas que criamos, nossa cisma em achar que a vida tem que ser do jeito que queremos e não do jeito que efetivamente é.

Site - E quando o sofrimento não depende só da gente? Temos pais, parentes, filhos, responsabilidades com os outros... Não podemos simplesmente dar um chute para o alto em tudo...
Lourdes - Chutar tudo para o alto seria uma atitude irresponsável, o ideal é sempre ponderar e sentir para que serve tudo o que lhe acontece, qual aprendizagem que precisa ter a partir de tudo isso. O seu sofrimento é sua responsabilidade, assim como o sofrimento do outro é responsabilidade dele. Temos que aprender a não nos identificar com o sofrimento do outro, podemos ajudar,  mas não podemos mudar o outro, a sua própria forma de criar seu próprio sofrimento. Evitar o sofrimento significa apenas lidar com as coisas sob uma perspectiva diferente. Pais, filhos, parentes são instrumentos para nossa evolução e aprendizagem. A ideia não é chutá-los ou abandoná-los, pelo contrário, mas aprender a conviver com as diferenças, com nossas expectativas frustradas; nós sofremos quando geramos expectativas de que o outro deve ser ou agir do jeito que queremos; a família nos propicia a aprendizagem da solidariedade, do amor incondicional, da ideia de responsabilidade de forma autêntica; se você decide ajudar alguém, esta atitude deveria ser autêntica, você precisa se sentir feliz em ajudar e isto significa agir de forma espontânea, pelo seu próprio bem, sem esperar nada em troca, sem se responsabilizar pela salvação do outro, pois isto só depende dele mesmo. Esta história de achar que alguém pode salvar alguém é neurótica. Você pode, no máximo, dizer o que pensa, dar sugestões, dar o exemplo através do seu comportamento, o outro segue se quiser, aliás, ouve, se quiser também. Assim, perceba os nossos limites: podemos falar, mas não podemos convencer, só se o outro quiser ser convencido. Se me cobro convencer já estou criando encrenca para mim, pois convencer não está dentro do meu campo de ação. Falar, sim, expôr minha opinião, dar sugestões, mas não posso convencer ninguém que não queira levar em conta o que estou falando. Sem dúvida temos carmas com nossos familiares, mas a verdadeira resolução do carma é justamente a aceitação do outro, amá-lo apesar de não atender às nossas expectativas, tê-los como os espelhos nos quais nos vemos, e assumir responsabilidade pelas projeções que fazemos. Não é o outro que me incomoda com seu jeito de ser; eu é que me incomodo. Assim, veja como somos nós mesmos que criamos, modificamos ou eliminamos o nosso sofrimento. Temos que aprender a lidar com as pessoas e não partir do ponto que temos de mudá-los, assim como os eventos em nossa vida que servem para nossa evolução.

Site - Você acredita em felicidade ou em momentos felizes na vida entremeados de muito sofrimento?
Lourdes
- De acordo com o nível consciencial que a maioria de nós se encontra, não acredito que possamos nos sentir felizes o tempo todo, podemos ter momentos de felicidade, não temos ainda uma grande maturidade espiritual para criamos esse estado de felicidade permanente. Por enquanto, acho que está de bom tamanho se conseguirmos diferenciar esse estado de felicidade gerado pela alma (bastante autêntico e profundo) daqueles momentos de alegria, na maioria das vezes confundidos com a satisfação de uma conquista, seja material ou emocional.  O sofrimento, como já foi dito, é uma forma de a natureza nos guiar para caminhos mais essenciais e nos fazer refletir nas posturas e atitudes inadequadas à nossa natureza e às  leis universais.

Site - Este já é seu sétimo livro na Lúmen Editorial. E seus livros tem ajudado muita gente. Algum outro tema em vista?
Lourdes
- Um a coisa extremamente gratificante são os feedbacks que recebo, via cartas, e-mails e relatos no consultório de como os livros têm ajudado muito gente a se encontrar e mudar. Isto é realmente muito lindo e gratificante. Há vários temas em vista: um é sobre o relacionamento familiar, focando a família neurótica, a guerra entre os membros,  no sentido de ajudá-la a amadurecer, crescer, aprendendo o diálogo e também fornecendo informações sobre os arquétipos femininos e masculinos que explicam um pouco as nossas tendências neuróticas nos relacionamentos; as cobranças que as pessoas se fazem tentando se colocar dentro do "tradicionalmente correto e aceito pela sociedade", enfim objetivando sempre o amadurecimento pessoal e da família como grande contribuição para uma nova sociedade mais tranquila, madura e feliz. Afinal, este é o foco da Nova Era, não?


     
 




 


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